No período de graça das gestões de Lula, havia quem discutisse sobre o que seria maior, ele ou o PT. Discussão desfocada, já que ambos compunham, indissociavelmente, uma mesma entidade que amalgamava líder carismático e organização. O líder era o principal símbolo da organização. Era esta, contudo, que operacionalizava na prática sua liderança antes da conquista da Presidência. Eleito presidente, amealhou outra estrutura operacional, distinta da organização partidária e muito maior do que ela – o governo. Lula pôde se descolar do PT.
Findo seu mandato e empossada uma sucessora menos subserviente do que o esperado, regressou à condição anterior com um acréscimo problemático: como avalista da eleição de Dilma, Lula estava simbolicamente atado a seu destino. O colapso do governo dela veio acompanhado da desmoralização pública do PT por seguidos escândalos e, como se já não fossem suficientes, das suspeitas sobre o próprio líder, envolvido em muitas histórias difíceis de explicar.
O estrago para sua imagem não foi nada desprezível e ensejou a invenção dos “pixulecos” infláveis por detratores radicais. Agora, sua transformação em réu poderia ser apenas mais um golpe simbólico; afinal, aceitação da denúncia não equivale a condenação. Contudo, quando um homem se converte, principalmente, em símbolo, seguidos danos simbólicos são bem mais corrosivos do que seriam se ele fosse ainda, preponderantemente, um líder organizacional – de um governo ou de um partido menos combalido.
(Texto originalmente publicado em O Estado de S. Paulo)