Entrevista: Elize Massard

CEPESP  |  15 de fevereiro de 2019
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Em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o Cepesp/FGV entrevistou a professora e pesquisadora Elize Massard, para traçar um perfil da mesma e mostrar o cotidiano, desafios e estudos de uma pesquisadora.

Elize Massard da Fonseca tem 40 anos e é formada em psicologia pela PUC-Rio. Possui mestrado e doutorado em saúde pública pela Escola Nacional de Saúde Pública, Fiocruz, Ministério da Saúde e doutorado em política social pela University of Edinburgh, no Reino Unido.

elize massard
A professora e pesquisadora do Cepesp/FGV, Elize Massard.

Atualmente, é pesquisadora no Centro de Estudos de Política e Economia do Setor Público da FGV (Cepesp/FGV), onde desenvolve estudos sobre regulação de medicamentos em perspectiva comparada: integração das políticas de ciência, tecnologia, inovação e saúde; e formulação e implementação de políticas de saúde no Brasil.

A entrevista pode ser lida, na íntegra, abaixo.

Em que momento surgiu o interesse em se tornar uma pesquisadora? E quando você se interessou pela sua atual área de pesquisa?

Durante a graduação, quando fiz estágio em um programa de prevenção a AIDS entre usuários de drogas injetáveis (UDIs), que era desenvolvido na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, apoiado pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial de Saúde. Naquele momento pude observar na prática a complexa relação entre pobreza, AIDS, e uso de drogas. Essa experiência me marcou profundamente e despertou meu interesse em estudar como políticas públicas podem contribuir para solucionar problemas sociais, particularmente em populações vulneráveis.

Minha agenda de pesquisa evoluiu naturalmente. Inicialmente meu interesse era em monitoramento e avaliação de políticas públicas, especificamente em avaliar a resposta brasileira para prevenção à AIDS entre UDIs. Essas são ações de saúde pública controversas e que precisam ser constantemente avaliadas para que obtenham o resultado esperado. Naquele momento, o Programa Nacional de AIDS não dispunha de uma estratégia para isso. Paralelamente, participei de outras pesquisas sobre a política de AIDS no Brasil. Com isso pude perceber que a falta de acesso a medicamentos essenciais em países em desenvolvimento é um dos principais problemas de saúde global.

A regulação de medicamentos, seja ela propriedade intelectual ou mesmo sanitária, tem consequências direta no preço e disponibilidade desses produtos. Regular esse setor exige um diálogo com grupos econômicos poderosos e também com pacientes e consumidores. Essa foi uma inflexão importante na minha carreira, pois percebi que precisaria aprender conceitos e métodos das ciências sociais para estudar essa questão. Minha agenda de pesquisa atual decorre desse histórico e tem sido consistente no sentido de analisar a economia política da regulação de medicamentos no Brasil, e mais recentemente, em perspectiva comparada.

Você recebeu algum incentivo (de qualquer tipo) para atuar como pesquisadora?

Do ponto de vista de apoio de profissional, meus pais sempre me incentivaram a seguir carreira acadêmica. Minha família é originalmente de agricultores, imigrantes fixados em uma pequena vila, que tem como principal economia a plantação de café, situada no município de Alegre, estado do Espírito Santo. Meus pais foram da primeira geração de suas famílias a concluírem o curso superior e atualmente são professores em uma universidade federal no Rio de Janeiro. Então, a preocupação com a educação e formação profissional sempre foram solidamente cultivadas por meus pais e marcou minhas escolhas durante os anos subsequentes. Nos dias atuais meu marido também se faz muito presente e conto com seu estímulo permanente, além de me ajudar a compreender conceitos complexos de economia e até mesmo nas tarefas de casa mais simples (!)

Do ponto de vista financeiro, fui bolsista CAPES durante a pós-graduação e atuei como assistente em um grupo de pesquisa em epidemiologia de doenças infecciosas. Ainda no doutorado na Fiocruz, fui contemplada com uma bolsa do Programa de Estágio de Doutorado no Exterior da CAPES para fazer pesquisa na University of Michigan e Michigan State University. Foi uma experiência que solidificou meu interesse em cursar um programa de doutorado em ciências sociais no exterior. Na sequência fui bolsista da University of Edinburgh e tinha isenção de taxas escolares. Sem esse apoio, dificilmente teria tido condições de me dedicar integralmente à pesquisa. Atualmente, tenho recurso de pesquisa da FAPESP, da FGV e do CNPq que financiam pesquisas de campo, participação em eventos, e bolsas para alunos de graduação e pós-graduação.

Você sofreu ou ainda sofre um tratamento diferente no meio por ser mulher? Acha que houve uma evolução nesse sentido?

Sim. No ambiente de trabalho, quando uma mulher precisa se colocar de forma assertiva, muitas vezes é rotulada de “trouble-maker” ou causadora de problema, enquanto para os homens esse comportamento é tido como uma liderança forte. Entretanto tenho me esforçado para que isto seja superado, entendo como desafios próprios da cultura em relação o papel da mulher no meio profissional.

Por outro lado, quando morei em Edimburgo, uma coisa que me chamava muito a atenção era a quantidade de meninas asiáticas que viviam na cidade para cursar graduação. Meninas muito jovens que saíram de casa para estudar e trabalhar em um contexto completamente diferente. Talvez isso não fosse possível há 20, 30 anos atrás. Então, é uma geração que tem ocupado cada vez mais espaços na academia e que valorizam essa oportunidade. Hoje há uma consciência maior sobre isso, mas acho que ainda há muito a ser feito.

Quais os principais desafios que você superou ao longo da carreira de pesquisadora? E quais desafios você ainda enfrenta? 

Estudar fora do Brasil, por tantos anos, foi um desafio importante. Aprender uma nova língua, escrever uma tese em inglês, ficar muitos meses longe da família e amigos e ter de financiar minha estadia em um dos países mais caros do mundo. Algumas taxas escolares não eram custeadas pela bolsa e os custos de vida também não. Então, trabalhei em como vendedora em uma loja de roupas por seis meses e atuava como monitora (teaching assistant) em vários cursos para financiar minha estadia. Foi um período difícil, mas que valeu a pena.

Hoje em dia, balancear a carreira de docência e pesquisa tem sido um desafio que tem me exigido muita organização e disciplina. Gostaria de ter mais tempo para ficar com minha família. Muitas vezes os finais de semana e feriados são apenas mais um dia de trabalho.

Qual você considera ser o seu maior orgulho e realização no âmbito acadêmico? 

Uma das coisas mais gratificantes é, sem dúvida, educar e treinar jovens cientistas. Também tenho muito orgulho de ter concluído meu doutorado no exterior, apesar de todas as dificuldades; trabalhar na FGV, com colegas que sempre admirei; e me sinto muito realizada por desenvolver pesquisas em um assunto que é relevante para a sociedade e além disso mostrar que o Brasil pode desenvolver políticas públicas inovadoras e servir de inspiração para outros países.  

Quais pesquisadoras te inspiraram e ainda te inspiram? Como você se vê ou se considera uma inspiração para outras jovens?

Todas as pesquisadoras com quem pude trabalhar de forma mais próxima sempre me inspiraram muito. Particularmente, minha co-autora e colega, Amy Nunn, é uma pessoa que tenho como referência por sua generosidade, profissionalismo, rigor metodológico e por sempre se preocupar para que suas pesquisas tenham impacto para a sociedade.

Como inspiração para outras jovens, eu busco motivá-las a ter contato com grupos de pesquisa no exterior e que possam vivenciar o ambiente acadêmico em outros contextos. Procuro estimular minhas alunas a desenvolver projetos que respondam grandes questões de relevância para o Brasil e outros países em desenvolvimento. Uma de minhas bolsistas de iniciação científica retornou recentemente da London School of Economics. Com os dados coletados em Londres, elaboramos um manuscrito comparando as políticas para o complexo industrial da saúde no Brasil e Reino Unido e que está submetido a uma revista de alto fator de impacto.

Abaixo, seguem os links de algumas publicações da professora:

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1812959

https://doi.org/10.1017/S0022216X18001050

https://doi.org/10.1080/17441692.2017.1396354

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