Saída segura do isolamento precisa de muitos testes e monitoramento, avaliam pesquisadores

CEPESP  |  9 de julho de 2020
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Quando e como sair da fase de isolamento social (ou mesmo de lockdown) adotada para combater a pandemia da Covid-19? Qual o trade-off entre economia e saúde? Como ficará a vida nas grandes cidades no pós-pandemia? Para os professores Maurice Kugler, da George Mason University, e Ciro Biderman, da FGV e coordenador do Cepesp, a saída segura precisa “testar, testar e testar” e também de um sistema de monitoramento que permita rastrear a contaminação para identificar e isolar os novos infectados. A escolha entre reduzir o impacto econômico da pandemia e  salvar vidas é um falso dilema e a desigualdade nas grandes cidades tende a aumentar com profundas transformações em algumas áreas, como o transporte público. Os dois professores, pesquisadores de políticas públicas, discutiram estes temas na quarta-feira, dia 8 de julho, em webinar organizado pelo Departamento de Ciência Política da USP e pelo Cepesp, com mediação de Lorena Barberia.

De acordo com Kugler, apenas quando um país (ou uma região) atinge uma taxa de contágio (chamada de Rzero ou R0) inferior a 1 (o que indica que o grau de contágio está abaixo do grau de recuperação) é possível reabrir a economia de forma razoavelmente segura. Os Estados Unidos, ponderou, chegaram a ter no pico da pandemia um Rzero de 2,5, o que significa que uma pessoa infectada transmitia o vírus para outras 2,5 pessoas a mais do que o número de recuperados. Apenas com uma taxa inferior a 1 é que o contágio entra em uma fase de desaceleração, explicou. 

Maurice Kugler: tecnologia de aplicativos pode ajudar no monitoramento

De uma maneira geral, ponderou, os países estiveram (e muitos ainda estão, como os EUA e o Brasil) diante de duas opções: abrir a economia e aumentar a taxa de contágio ou manter medidas rígidas de isolamento social para retardar o contágio, uma opção que afeta profundamente a economia. “Mas para países em desenvolvimento, como o Brasil, essa segunda opção não funciona porque uma parcela expressiva da população trabalha na economia informal e não tem proteção, não pode trabalhar em home office”, ponderou. “Mas na verdade não existe esse trade-off”, argumentou, ponderando que abrir a economia mais cedo para evitar uma recessão brutal pode ter um efeito contrário e aumentar o tamanho da perda econômica porque se estende a pandemia por mais tempo, abrindo e fechando a economia, como em uma montanha-russa.

Kugler apresentou cenários para uma saída da fase de isolamento e ponderou que podem ser adotadas diferentes política de isolamento para grupos demográficos distintos (maior liberação para jovens e mais restrição para idosos) e geográficas (com rigidez variável conforme o nível de contágio e capacidade de atendimento hospitalar), mas sempre pensando que a taxa de contágio precisa estar em uma fase controlada para se pensar em amenização das medidas de isolamento. E na flexibilização, avaliou, os aplicativos de celular podem ter um papel no rastreamento da doença e nos avisos de saúde pública.

Biderman concordou com a avaliação de que economia X saúde é um falso dilema, e argumentou que os países que foram mais restritos nas primeiras medidas de isolamento e adotaram boas políticas públicas de saúde, também foram os que lograram sair mais rápido da fase aguda da pandemia e hoje já estão com a economia funcionando mais próxima da normalidade, como Alemanha, Coreia do Sul e a própria China.  Para Biderman, em muitos países, os dirigentes não perceberam que o grande problema da Covid-19 é sua alta taxa de transmissão. Em muitos lugares, os líderes olharam apenas para a taxa de letalidade e consideraram apenas o fato de que ela é menos letal que outras doenças (inclusive outras gripes), mas desconsideraram que seu contágio é avassalador. 

Ciro Biderman: testes e rastreamento

Na avaliação de Biderman, mesmo considerando um Rzero inferior a 1, é preciso que as medidas de flexibilização do isolamento sejam acompanhadas pelas dobradinha “muitos testes e rastreamento da doença”. Esse segundo elemento, que implica na capacidade dos governos identificarem e acompanharem cidadãos infectados  é mais complicado em democracias, mas é um debate que precisa ser feito porque envolve a saúde pública, ponderou o coordenador do Cepesp.

Um terceiro ponto do debate entre os dois pesquisadores foi o impacto no pós-pandemia.  Kugler ponderou que grandes empresas tendem a sair da crise em situação melhor do que as pequenas e médias (muitas das quais estão fechando as portas) e com isso ganhar poder de monopólio no futuro, e também tende a se alargar a desigualdade entre os trabalhadores mais e menos qualificados, entre os formais e os informais

Biderman acrescentou que assim como a doença atingiu mais fortemente os mais pobres (porque não puderam trabalhar em casa, não puderam deixar de usar transporte público, vivem em locais muito pequenos e não puderam se isolar uns dos outros),  o pós-pandemia também tende a ser mais desigual se não forem adotadas boas políticas públicas. Especialista em transporte público, ele contou que em Wuhan, China, as primeiras informações do pós-pandemia é de que o uso do transporte público está em 40% da capacidade e que a tendência é que, por medo, as pessoas usem menos o sistema coletivo de transporte no futuro. “Mas como sustentar um transporte público que usa apenas 40% da sua capacidade?”, questionou o coordenador do Cepesp. Na imensa maioria das cidades, argumentou, o poder público não tem capacidade financeira para subsidiar este serviço. Uma opção seria reduzir a frequência, piorando a qualidade do serviço e, mais uma vez, prejudicando os mais pobres que não tem a opção de usar carro próprio ou aplicativos de transporte. “Não sabemos como será o futuro do transporte público”, resumiu.

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