Como a competição eleitoral impactou a abstenção de segundo turno

CEPESP  |  1 de dezembro de 2020
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Guilherme Russo*

As taxas de abstenção subiram em 2020, o que já era esperado dado a pandemia, a facilidade para justificar o voto e o aumento da parcela de eleitores com mais de 70 anos. As taxas foram especialmente altas nas eleições de segundo turno, como antecipamos aqui em análise anterior baseada em eleições passadas. Entretanto, esse aumento na taxa de abstenção entre os turnos não foi igual em todas cidades. Enquanto o aumento médio foi de 3.24 pontos percentuais, a taxa subiu 7.45 pontos em Boa Vista (RR) entre o primeiro e segundo turno, mas caiu 0.7 pontos em Vitória da Conquista (BA). O que explica essa diferença?

Um fator importante que explica o aumento da abstenção é o “nível de competição” da disputa, isto é, até que ponto era difícil prever quem seria o/a vencedor/a do segundo turno. Em Boa Vista, a corrida já estava praticamente definida dado que o agora prefeito-eleito venceu o primeiro turno com uma vantagem de quase 40 pontos (49.6 v. 10.6). Em São Luís e Rio de Janeiro, onde a abstenção aumentou mais de 5 e 3 pontos, respectivamente, a vantagem do vencedor no primeiro turno era substancial e estava razoavelmente claro quem venceria, especialmente quando levamos em consideração as pesquisas eleitorais. Por outro lado, em Vitória da Conquista, a corrida estava bastante acirrada- 47.6 v. 45.9, e a abstenção não só caiu, como houve uma virada no segundo turno. Em Porto Alegre, onde a diferença no primeiro turno também foi bem pequena e as pesquisas indicavam empate técnico no dia anterior à votação, a abstenção também caiu. Em Recife, onde o cenário era parecido, a abstenção subiu, mas, assim como em São Paulo, menos de 2 pontos percentuais.

Em contraste ao aumento na abstenção entre turnos, a taxa de votos inválidos (i.e., nulos mais brancos) caiu, em média, 1.7 pontos percentuais entre turnos, como também já era esperado. No entanto, apesar da média ser negativa, a taxa subiu em 13 cidades, incluindo Campinas (SP) e Petrópolis (RJ), onde o aumento foi maior que 8 pontos percentuais. Em Campinas, uma série de partidos de candidatos derrotados decidiram não apoiar ninguém no segundo turno, inclusive a chapa PT-PSOL que terminou o primeiro turno em terceiro com mais de 20% dos votos válidos.

Em compensação, a taxa de votos inválidos caiu mais de 12 pontos em Cuiabá, o que pode ter ajudado na virada apertada do candidato do MDB sobre o candidato do PODEMOS. Em Porto Alegre, onde a corrida também estava acirrada, a taxa de votos inválidos caiu 4 pontos.

É importante notar, entretanto, que a taxa de votos inválidos é condicional à abstenção, logo, uma diminuição na taxa não necessariamente significa mais votos válidos no pleito. Isto é, enquanto uma queda na taxa de votos inválidos significa maior engajamento do eleitorado em um município onde a abstenção não se alterou, uma queda semelhante nos inválidos em um município onde a abstenção cresceu pode significar que pessoas que haviam votado branco ou nulo no primeiro turno deixaram de votar e/ou que eleitores que votaram para candidatos derrotados no primeiro turno optaram por não comparecer às urnas, o que no agregado pode resultar em um menor engajamento. Assim, a relação entre resultado do primeiro turno e mudança nos votos inválidos não é tão clara como quando analisada a diferença na taxa de abstenção entre turnos.

Portanto, apesar do contexto de pandemia e elevação nos níveis de abstenção, a diferença nas taxas de abstenção entre os turnos seguiu o padrão encontrado em outros anos. Da mesma forma, a diminuição média na taxa de inválidos também é parecida com análises dos anos anteriores. Por outro lado, a análise apresentada aqui mostra como a mudança nas taxas de abstenção entre turnos é produto do nível de competição, em outras palavras, do quão acirrada é a corrida. Este resultado corrobora uma série de trabalhos que indica que o comparecimento eleitoral (voter turnout em inglês) tende a ser maior em eleições acirradas, por exemplo, Downs (1957)Riker and Ordeshook (1968)Cox and Munger (1989)Blais (2000)Kam and Utych (2011). Essa análise foi inspirada em conversa com a jornalista Carolina Freitas, do “Valor Econômico”, que escreveu sobre o tema aqui.

*Guilherme Russo é pesquisador do FGV Cepesp

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