Recessões aumentam adesão à igreja Pentecostal e influenciam mapa político do país, aponta estudo

CEPESP  |  17 de dezembro de 2019
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Períodos recessivos na economia brasileira, com aumento do desemprego e queda na renda, impulsionaram a afiliação pentecostal no país e levaram ao aumento de votos em candidatos desta orientação religiosa para o Congresso Nacional. Uma vez eleitos, os parlamentares associados a denominações pentecostais tendem a propor e apoiar causas mais conservadoras. Essa foi a linha seguida e a conclusão do estudo “Stop Suffering!  Economic Downturns and Pentecostal Upsurge” (Pare de Sofrer! Recessões Econômicas e Crescimento Pentecostal), que tem o professor da FGV EAESP e pesquisador do Cepesp, Rudi Rocha, como um dos autores, junto com Francisco Costa, da FGV EPGE, e Angelo Marcantonio, mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os autores mapearam o efeito da abertura comercial dos anos 1990 em diversas microrregiões brasileiras e afiliação ao Pentecostalismo em cada um destes locais. A partir do cruzamento destes dados, eles constataram que nas microrregiões mais afetadas a afiliação ao pentecostalismo aumentou mais. Para Rocha, “durante períodos de crises econômicas, as pessoas ficam mais suscetíveis à retórica religiosa e a participação nestas comunidades também fornece aos seus membros uma espécie de seguro informal contra adversidades”.

De acordo com os censos populacionais, entre 1991 e 2000, a parcela de católicos caiu 7,5 pontos percentuais, enquanto a proporção de pessoas que se declararam pentecostais aumentou 80%, de 4,9% para 8,9% do total. Dados do Datafolha, relativos a 2016, mostram que a adesão continuou crescendo e já superava 20% da população naquele ano. 

Na segunda parte do trabalho, os autores calcularam o aumento no voto em candidatos evangélicos, que foi maior nas regiões economicamente mais afetadas pela abertura econômica. No Brasil, candidatos associados a denominações evangélicas passaram a concorrer mais expressivamente para o congresso. A presença destes parlamentares aumentou desde o início dos anos 1990. Em 2000, foram quatro senadores e 45 deputados federais, dos quais, 1 senador e 22 deputados eram ligados à Igreja Universal (Pentecostal). Em 2014, a presença evangélica atingiu 74 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados em 2014, segundo dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Os autores mostram que parte importante deste avanço foi devida a recessões econômicas.

Depois de analisar o aumento da presença de parlamentares associados ao pentecostalismo no Congresso, os autores mapearam a pauta legislativa destes candidatos uma vez eleitos. O número total de projetos apresentados é semelhante ao dos demais candidatos eleitos no mesmo ano, Estado e partido. Mas as propostas sensíveis à pauta conservadora e religiosa foi muito maior (69% na média) entre os candidatos representantes do pentecostalismo. Para Rocha, esse movimento evidencia os efeitos que o avanço da religiosidade pode ter sobre a sociedade e sobre política em uma democracia secular.

Embora o estudo não tenha mapeado os efeitos da recente recessão da economia brasileira (queda de mais de 7% do PIB entre os anos de 2014 e 2016, com o total de desempregados passando de 13 milhões no auge da retração), a percepção dos autores é que ela pode ter alavancado ainda mais a adesão ao pentecostalismo e sua representação política. Como pondera Rocha, a recessão atual pode ter implicações profundas e irreversíveis para o mapa político brasileiro.  

Você pode acessar a íntegra do estudo aqui.

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