Pesquisa Cepesp-Teto Brasil revela piora das condições de vida em favelas durante a pandemia

CEPESP  |  14 de setembro de 2020
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Aumento do desemprego e perda de renda, falta de acesso à infraestrutura básica, inclusive de água, e aumento de casos de depressão foram alguns dos problemas que cresceram nas comunidades vulneráveis durante a pandemia da Covid-19, segundo os resultados preliminares de uma pesquisa conjunta realizada pelo Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp FGV) e pela Teto Brasil junto aos moradores e lideranças de 32 comunidades, localizadas em seis diferentes Estados do país. Participaram da apresentação e discussão da pesquisa Leonardo Bueno, pesquisador do Cepesp, Juliana Simionato, gerente-social da Teto Brasil, e Marcela Ferreira, líder comunitária da comunidade da Bemfica, em São Paulo.

Vida nas favelas durante a pandemia: 9% das famílias precisam sair de cada para ter água

Entre os resultados presentes no Sumário Executivo da pesquisa Covid-19: Desafios e Superações nas Favelas, 9% das famílias relataram que precisam sair do seu domicílio diariamente em busca de água, o desemprego alcançou 45% dos moradores, 60% das famílias relataram que receberam o auxílio emergencial e 80% das pessoas reportaram algum incômodo de ficar em casa, seja por infraestrutura, seja pelo espaço reduzido das casas. De acordo com Bueno, a pesquisa mostrou que os efeitos da crise entre as famílias foram muito além da saúde e envolveram aspectos sociais, econômicos, familiares e psicológicos. Ontem foi apresentado o sumário executivo, e posteriormente será apresentado o conjunto do trabalho.

“Esses resultados mostram, infelizmente, que as comunidades estão mais vulneráveis que antes, mas também mostram algumas saídas e oportunidades que podemos usar”, observou Simionato. Na sua avaliação, “é possível criar uma igualdade na capacidade de resposta à pandemia, de acesso a direitos básicos de infraestrutura, e é possível fazer isso através de um trabalho conjunto. Ouvir moradores e os líderes das comunidades é importante, eles têm a resposta aos problemas que eles enfrentam”, acrescentou. Mais de 60% das pessoas mostraram, na pesquisa, que acreditam que é possível mobilizar as pessoas na comunidade para melhorar a própria situação e 45% indicaram que acreditam que dá resultado pressionar os políticos. Simionato lembrou que a crença na organização comunitária é a base do trabalho da Teto. Por isso, ponderou, “é legal ver que os moradores acreditam no potencial de transformação que eles têm”. 

Ferreira contou que a crise provocou um aumento nos casos de depressão na sua comunidade, seja porque as pessoas perderam algum familiar, seja pelo desemprego, seja pela dificuldade de ficar em casa em condições tão precárias. Entre os entrevistados, 14,7% relataram depressão e 46,5% das famílias relataram dificuldades para comprar comida. Os moradores, contou, tiveram que escolher entre ficar em segurança e garantir o sustento básico das suas famílias, em um contexto de aumento do preço de alimentos e de itens de higiene (incluindo o próprio álcool gel). “Os pais e mães de famílias tiveram que correr atrás, buscar sustento, às vezes não só para sua família, mas porque têm pais e mães ou outro familiar que é do grupo de risco”, contou. A líder comunitária ressaltou a importância da ajuda externa (de pessoas, de ONGS como a Teto e outras, além de profissionais que prestaram serviços) para a comunidade superar os problemas que recrudesceram durante a pandemia.

Ferreira também contou que, na sua comunidade, muitas famílias são de mães solteiras, que agora estão sem emprego porque as escolas e creches estão fechadas, e elas não têm com quem deixar as crianças. “São heroínas que precisam, sem trabalho, correr atrás de colocar comida dentro de casa e também, muitas vezes, de arrumar medicamento para os filhos”. Simionato contou que a presença das mulheres como chefes de família nas comunidades acompanhadas pela Teto é muito expressivo, e que realmente há um acúmulo de funções nesse momento. 

Simionato contou que durante a pandemia os voluntários da ONG suspenderam as visitas físicas que faziam às comunidades, mas mantiveram contatos por telefone com as lideranças comunitárias para entender como a pandemia estava afetando o dia-a-adia das famílias, e, a partir daí, passaram a desenvolver projetos mais relacionados aos problemas que apareceram. Na comunidade da Bemfica, por exemplo, foi construída uma pia comunitária para minimizar os efeitos negativos da falta de acesso à àgua sobre a vida da comunidade.  

A pesquisa

No documento, os pesquisadores explicam que a pesquisa tem dois planos de análise: no primeiro, foi avaliado “em que medida as condições de moradia, infraestrutura urbana e vulnerabilidade são relevantes para explicar a maior exposição da população de baixa-renda aos efeitos da COVID-19”.  No segundo, o “objetivo foi coletar evidências que corroborem (ou não) com a tese de que as diversas ações da TETO ajudam a diminuir a vulnerabilidade e a exposição à pandemia”.  Foram usadas metodologias quantitativas e qualitativas. Entre os meses de maio e julho de 2020, foram feitas 470 entrevistas quantitativas  em duas rodadas ( 374 se referem a amostra da avaliação de impacto e 96 às pessoas entrevistadas no processo de diagnóstico). Foram ouvidos moradores de 32 comunidades em seis Estados do país. Em paralelo, foi realizada uma pesquisa qualitativa, focada em lideranças comunitárias, que mapeia os impactos da COVID-19 nas comunidades, que ouviu 56 referências brasileiras com perguntas abertas, o que permitiu um nível de profundidade maior. O levantamento foi usado, portanto, para enriquecer as análises. Estas entrevistas foram realizadas entre os meses de maio e junho de 2020.

Entre os resultados, podem ser destacados: 

Acesso à água:

9% das famílias relataram que precisam sair do seu domicílio diariamente em busca de água

11,5% das moradias não possuem nem banheiro e nem chuveiro 

22% possuem apenas um deles, sendo a falta de chuveiro muito mais crítica

Adesão à quarentena

80% das pessoas relataram algum incômodo de ficar em casa. Entre os motivos, a falta de possibilidades de lazer foi citado por quase 30% das pessoas, muitas das quais destacam a falta de alternativas de entretenimento, principalmente televisão e acesso à internet. A “infraestrutura da moradia” também foi um dos motivos apontados, com destaque para falta de energia e água. Muitas moradoras e moradores relataram que a pior coisa de ficar em casa é estar sem trabalho ou renda (22,7%). Há também um número alto que reclamou de “solidão ou depressão” (14,7%). Em menor proporção também foi citada a fome (2,6%).

Vulnerabilidade econômico-social

De forma geral, 33% dos moradores e moradoras relataram estar desempregadas, mas como em torno de 26% das pessoas declarou que não trabalha, considerando apenas a população economicamente ativa, a taxa de desemprego entre esse grupo é de 45%. No mesmo período, a taxa do Brasil variou entre 12,3% e 13,1%. As famílias também relataram perda de renda e aumento da dificuldade de comprar comida.

Políticas públicas

60% das famílias relataram que receberam o auxílio emergencial e pelo menos 20% informaram que receberam ajuda de governos subnacionais. ONGs também foram responsáveis pela promoção de ajuda humanitária, 56% das pessoas entrevistadas afirmaram terem recebido ajuda dessas entidades.

O sumário executivo pode ser acessado aqui e seminário pode ser assistido nesse link, do youtube da FGV.

Sobre a TETO: TETO é uma organização internacional que busca superar a situação de pobreza em que vivem milhões de pessoas em favelas precárias por meio do engajamento comunitário e mobilização de jovens voluntários. Há mais de 12 anos no Brasil, a organização já construiu mais de 4 mil moradias de emergência, desenvolveu 50 projetos comunitários e mobilizou mais de 70 mil voluntários. Frente a COVID-19, a TETO Brasil reviu seu portfólio de projetos e passou a focar suas ações em projetos que mitiguem os efeitos da pandemia e apoiem: acesso à água e saneamento, segurança alimentar e formação comunitária. Saiba mais em: tetobrasil-covid19.org

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