Eleição em Dados: É a geografia, estúpido!

CEPESP  |  4 de outubro de 2018
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A questão sobre quem vai ganhar as eleições de 2018 encobre outra igualmente Importante: como a eleição será ganha? Candidatos a deputado fazem suas campanhas em redutos locais, onde são reconhecidos, ou em todo o Estado, investindo recursos enormes para alcançar milhões de pessoas?

Essas escolhas se traduzem na geografia dos votos de cada candidato e revelam estratégias eleitorais invisíveis a olho nu.

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Créditos: Valor Econômico

Uma rápida observação da distribuição dos votos dos candidatos dentro dos Estados em eleições passadas já é suficiente para apontar que o número de votos recebidos pelos candidatos está longe de ser homogêneo entre os municípios. Em parte, essa distribuição dos votos se deve às enormes diferenças no número de eleitores entre os municípios; além disso, as fortes desigualdades regionais nos níveis de renda e escolaridade poderiam explicar as escolhas dos eleitores em função de diferentes perfis de candidatos.

Uma análise mais detalhada da distribuição dos votos entre os municípios revela que, mais que determinismo demográfico ou social, esse padrão resulta das estratégias eleitorais dos candidatos.

Os dados – expressos nos mapas do CepespData (www.cepespdata.io) – revelam que a grande maioria dos candidatos foca a campanha em determinados municípios dentro do seu Estado. Mas a análise da geografia dos votos pode ser útil também na distinção entre as estratégias eleitorais. Dois exemplos das eleições de 2014 ilustram o ponto. A figura 1 traz o mapa dos votos obtidos pelo candidato Odelmo Leão (PP-MG), com padrão de concentração de votos correspondente ao senso comum sobre as estratégias eleitorais dos candidatos.

Nesse padrão, os candidatos eleitos seriam líderes locais (no caso, ex-prefeito de Uberlândia, município em que obteve 85,6% de votos), cuja influência alcançaria municípios vizinhos, conformando os “distritos informais”.

Entretanto, pouquíssimos candidatos conseguem votos suficientes para serem eleitos em redutos únicos e contíguos. Mais frequentemente, os candidatos eleitos precisam obter votos em vários municípios, apresentando grau de concentração eleitoral muito menor que os não eleitos.

A maioria dos eleitos apresentou votos dispersos entre vários municípios, tal como ilustrado na figura 2 pelo mapa dos votos obtidos pelo candidato Vanderlei Macris.

Embora tenha obtido 26,2% de seus votos em Americana, município onde iniciou a carreira política com vereador, sua eleição se deveu aos votos que conseguiu em outros municípios, alguns vizinhos (Santa Barbara, Nova Odessa e Sumaré) e outros distantes (São Paulo, Ibitinga, Atibaia, Pirassununga, Birigui e Araraquara).

A distribuição de votos dos eleitos questiona a existência de “distritos informais” nas eleições brasileiras. A análise dos dados indica que esses candidatos, embora possam concentrar alguns votos em determinado município, tiveram de conquistar apoio em outros municípios, na maioria das vezes distantes da sua principal base eleitoral.

Dado os custos logísticos da fazer campanha em novas regiões, a dispersão dos votos entre os eleitos se dá através de blocos descontínuos de municípios. Assim, os candidatos tendem a se dispersar no território, porém, mantém bom desempenho em áreas formadas por grupos de municípios em diferentes áreas do Estado.

Desvendar as motivações das escolhas de estratégias eleitorais pelos candidatos demanda mais pesquisas. Da mesma forma, a atual restrição nos gastos eleitorais pode levar a padrões mais baratos de campanha, com a formação de “distritos informais”, mais próximos ao padrão clássico de concentração.

O impacto dessa e outras reformas também estão por ser investigadas. O que há de certo é que a análise das eleições brasileiras requer o uso da geografia e a compreensão das influências locais sobre o voto. Parafraseando James Carville: “É a geografia, estúpido!”

Texto originalmente publicado no site Valor Econômico.

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George Avelino é coordenador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp/FGV)

Jonathan Philips é pesquisador do Cepesp/FGV

Frederico R. Ramos é pesquisador do Cepesp/FGV

Este artigo é de responsabilidade do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (Cepesp/FGV) faz parte da parceria “Eleição em Dados”, será publicado terça-feira em versão digital no “Valor PRO” e na quarta-feira em versão impressa pelo “Valor Econômico”

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