Seja na saúde, na educação, na economia ou na violência- doméstica e nas ruas –
está claro em estudos de diferentes áreas que os principais impactados pelos cerca
de seis meses de pandemia na América Latina têm perfil: as populações periféricas,
negros e indígenas. O fortalecimento do SUS e o investimento em políticas voltadas a
públicos específicos foram enfatizados como as principais soluções para o problema
da intensificação das desigualdades sociais decorrente da crise atual.
O jornal digital Nexo promoveu esta semana, como parte de uma série especial
de webinars, o
encontro que discutiu a exposição das desigualdades sociais preexistentes
que a pandemia trouxe à tona, mas também o seu aprofundamento a curto, médio e longo
prazo e os caminhos para uma sociedade mais protegida de suas
consequências.
A cientista política Lorena Barberia, professora e pesquisadora da USP e do FGV
Cepesp e coordenadora científica da Rede de Pesquisa Solidária, foi uma das três
especialistas convidadas para o evento. Barberia disse que o contexto anterior dos
países magnifica as consequências da pandemia e que faltou, e ainda falta, no Brasil
coerência e centralização nas políticas públicas.
“Estamos em outubro! Não é o primeiro mês da pandemia, já se sabia em fevereiro
quem seriam os mais afetados dentro do país e tivemos mais de 6 meses para tratar
desses desafios”, ressaltou a pesquisadora, reforçando a urgência de ações
governamentais preventivas que garantam o controle da pandemia e a proteção
específica dos grupos mais vulneráveis. Entre as ações preventivas, Barberia
destacou o uso de testes diagnósticos do tipo RT-PCR, apesar de seu custo ser
considerado alto.
Emanuelle Góes, doutora em saúde pública que se dedica à relação entre saúde e racismo, também comentou sobre a fragmentação e ausência de uma ação marcante e unificada do Estado na resposta à crise causada pela doença. Góes explicou que as iniciativas coordenadas, idealizadas e aplicadas de forma independente por comunidades carentes de assistência médica e social veio da consciência sobre a ausência do Estado nessas regiões. “A comunidade agiu porque sabia que se não agisse iria morrer”.

Góes também lembrou do aumento de feminicídios no Brasil e Argentina durante a pandemia e da violência policial contra negros mascarados que se encontram em posição obrigatória de atuar na rua, em empregos precarizados e “uberizados”. A associação do uso da máscara alimentando ações racistas é corroborada por uma pesquisa americana em andamento e discutida pela agência de jornalismo Alma Preta, conforme citou a pesquisadora.
A defesa do SUS no combate à desigualdade
O aumento das desigualdades sociais causado pela pandemia de Covid-19, “é um
retrocesso de décadas de conquistas sociais” em áreas como saúde e educação,
afirmou a especialista em demografia de doenças infecciosas e pesquisadora de
Harvard, Márcia Castro, terceira convidada para a mesa do evento. A pesquisadora
citou a estimativa da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), organismo
ligado à ONU, de que o PIB per capita de países da América Latina poderá se
equivaler ao de dez anos atrás com o impacto da pandemia, e que os níveis de pobreza
poderão retroceder ainda mais.
Castro afirmou ainda que a expectativa de vida dos brasileiros irá provavelmente
sofrer impactos nos próximos anos, e citou como exemplo um estudo realizado
recentemente nos Estados Unidos que diz que a expectativa de vida no país terá uma
diferença aumentada para 30% entre brancos e negros, por causa da Covid.
Para a pesquisadora, a melhor ferramenta para combater esses dados e projeções, e que
foi subutilizada este ano, é o SUS, o Sistema Ùnico de Saúde brasileiro. “Só que
para isso é prioridade máxima na agenda fortalecê-lo agora(…) sem o SUS
simplesmente não tem como reverter essa desigualdade”, comenta Castro.
Um ponto em comum nas falas das três especialistas é o da necessidade de estratégias
de superação das desigualdades regionais e étnico-raciais através de políticas
públicas destinadas a públicos específicos, especialmente dentro do SUS. Em uma
sociedade desigual, “políticas que são para todos chegam primeiro aos que menos
precisam ”, argumenta Márcia Castro, simbolizando que a falta de foco das ações nas
populações mais vulneráveis implica que tais ações acabam não chegando aos que mais
as necessitam.
Esses grupos mais vulneráveis, como lembrou Emanuelle Góes, não são uma parcela minoritária da população. “A gente ainda discute a população negra, parda e povos tradicionais como minoria, quando, em sua soma, não o são”, declarou Góes, dentro do debate de medidas universalistas não darem conta de violências estruturais e demandas da sociedade latino-americana.
Desinformação, envolvimento da população e os “3 Cs”
Outro ponto em comum durante o evento foi o da importância da clareza nas mensagens
de órgãos e instituições governamentais para a população e o combate à
desinformação. Segundo Lorena Barberia, a falta de coerência e a fragmentação
das políticas adotadas, combinadas com os conflitos entre o governo federal e
os governos subnacionais, acabaram produzindo uma confusão generalizada na população
sobre as melhores medidas profiláticas durante os primeiros meses de pandemia, que
tende a continuar nos próximos. “A clareza na mensagem impacta diretamente na adesão
às políticas públicas”, concluiu.
Márcia Castro complementou que políticas de campanhas em massa de comunicação da
saúde, conscientização e vacinação já foram exemplo de qualidade no Brasil, o que
não é o caso com o atual governo. Como exemplo, lembrou que o índice de confiança em
imunizações, que era em torno de 80% em 2015, caiu para 56% em 2019.
Por fim, as três convidadas marcaram a importância do envolvimento da sociedade
e pressão sobre lideranças governamentais para que o buraco da desigualdade não
aumente ainda mais nos próximos anos. “O SUS começou como um movimento popular, não
foi iniciativa original do governo”, lembra Castro.
Sobre a impossibilidade de se manter para os próximos meses um quadro de medidas de
mitigação de impactos, como o auxílio emergencial e programas estaduais e
municipais, Lorena Barberia comentou que o único modo de frear o aumento das
desigualdades no campo das políticas públicas envolve que elas sejam “três 3
C’s”: coerentes, claras e coordenadas. Pois, segundo a pesquisadora, é trágico
começar a falar sobre os números da desigualdade apenas após serem declarados os
óbitos.
